Assinalamos no dia 20 de Fevereiro de 2012, os 34 anos da morte de Vitorino Nemésio, poeta, escritor e intelectual de origem açoriana.
Sobejamente conhecido pela obra Mau Tempo no Canal (1944), romance que
lhe mereceu o prémio Ricardo Malheiros, deixou-nos um legado muito rico e
vasto, onde regista, fortemente, as suas raízes insulares.
Em
Mau Tempo no Canal, o autor apresenta-nos uma panorâmica da sociedade
açoriana, bem como questões intrínsecas ao ser humano, tais como as
paixões, os medos, as angústias....
Acção decorrente entre o
Faial,Terceira,Pico e S.Jorge, a obra decorre à volta de um namoro
entre João Garcia e Margarida Clark Dulmo, como pretexto para o retrato
de uma sociedade de ilha.
De realçar a forma apaixonante como retrata os baleeiros.
Nesta obra, vive-se a nostalgia do Ser Ilhéu, num abraço melancolicamente amoroso no odor da maresia.
(…) “E, entre as árvores estaladas da quinta
e o mar já grosso e tapado por uma
pasta de escuridão, ficaram um bocado
sufocados, sem poderem andar, voltados de repente, como panos de guarda‑chuvas,à procura de ar respirável, apanhando nas orelhas o chicote do vento e da areia.
Ao longo da grota corria um caminho
abandonado, rasgado de relheiras: o Caminho Velho. Partindo dali, cingia a ilha
num grande anel, como se tivessem armado um laço
de cinza às gaivotas. Só o interrompiam penedos,
fortins, um ou outro posto da Guarda Fiscal, a Doca e a cidade.
Apesar de quase só servir aos velhos pescadores de Porto Pim que iam fisgar
caranguejo, a Capitania do Porto mandara pôr‑lhe uma lâmpada ao largo da quinta
dos Dulmos.
Perto do «calhau», João Garcia e Margarida ficaram sob a luz intermitente que
bruxuleava de lá.
– Parece um vulto… – disse Margarida,
afirmando‑se.
– Não deve ser. – Mas João Garcia viu claramente uma sombra, um homem, que se debatia
com o cabeção do capote revirado pelo
vento. A lâmpada baixava. Uma vaga
de quilómetro atirou‑se à calheta, com um livro que se adivinhava esverdeado à flor de borrifos brancos, desfocados depois do segundo de
retracção que precedia o estoiro.
– É o pai! – disse Margarida apanhando a saia, que o vento
enfunara bruscamente. Não se sabia se o clarão da maré nascia do próprio mar ou de uma nesga do céu picado de uma estrela.” (…)
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