quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vitorino Nemésio (1901/1978)



  Assinalamos no dia 20 de Fevereiro de 2012, os 34 anos da morte de Vitorino Nemésio, poeta, escritor e intelectual de origem açoriana.   
  Sobejamente conhecido pela obra Mau Tempo no Canal (1944), romance que lhe mereceu o prémio Ricardo Malheiros, deixou-nos um legado muito rico e vasto, onde regista, fortemente, as suas raízes insulares. 

 Em Mau Tempo no Canal, o autor apresenta-nos uma panorâmica da sociedade açoriana, bem como questões intrínsecas ao ser humano, tais como as paixões, os medos, as angústias.... 
  Acção decorrente entre o Faial,Terceira,Pico e S.Jorge, a obra decorre à volta de um namoro entre João Garcia e Margarida Clark Dulmo, como pretexto para o retrato de uma sociedade de ilha. 
  De realçar a forma apaixonante como retrata os baleeiros.
  Nesta obra, vive-se a nostalgia do Ser Ilhéu, num abraço melancolicamente amoroso no odor da maresia.
  





(E, entre as árvores estaladas da quinta e o mar já grosso e tapado por uma pasta de escuridão, ficaram um bocado sufocados, sem poderem andar, voltados de repente, como panos de guarda‑chuvas,à procura de ar respirável, apanhando nas orelhas o chicote do vento e da areia.
Ao longo da grota corria um caminho abandonado, rasgado de relheiras: o Caminho Velho. Partindo dali, cingia a ilha num grande anel, como se tivessem armado um laço
de cinza às gaivotas. Só o interrompiam penedos, fortins, um ou outro posto da Guarda Fiscal, a Doca e a cidade.
Apesar de quase só servir aos velhos pescadores de Porto Pim que iam fisgar caranguejo, a Capitania do Porto mandara pôr‑lhe uma lâmpada ao largo da quinta dos Dulmos.
Perto do «calhau», João Garcia e Margarida ficaram sob a luz intermitente que bruxuleava de lá.
– Parece um vulto… – disse Margarida, afirmando‑se.
– Não deve ser. – Mas João Garcia viu claramente uma sombra, um homem, que se debatia com o cabeção do capote revirado pelo vento. A lâmpada baixava. Uma vaga
de quilómetro atirou‑se à calheta, com um livro que se adivinhava esverdeado à flor de borrifos brancos, desfocados depois do segundo de retracção que precedia o estoiro.
É o pai! – disse Margarida apanhando a saia, que o vento enfunara bruscamente. Não se sabia se o clarão da maré nascia do próprio mar ou de uma nesga do céu picado de uma estrela. ()

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